Leandro cresceu sem conhecer sua verdadeira origem, nem mesmo a própria data de nascimento. Para definir sua idade, Leandro precisou do testemunho de pessoas que conviveram com ele durante a infância, além de uma perícia realizada pelo Instituto Médico Legal (IML).
Durante seis décadas, Leandro Montes Silva viveu sem ter sua existência formalmente reconhecida. O morador de Nova Mamoré (RO) recebeu seu primeiro documento em dezembro de 2025, graças a uma ação da Defensoria Pública de Rondônia.
Leandro cresceu sem conhecer sua verdadeira origem, nem mesmo a própria data de nascimento. As lembranças da primeira infância são vagas e fragmentadas, e não há ninguém vivo ou em plena lucidez capaz de revelar de onde ele veio ou o que aconteceu com seus pais. Ainda muito pequeno e sem família, Leandro oferecia trabalho em troca de abrigo. Nunca chegou a ser adotado.
“Por volta dos 9 anos foi trabalhar na casa de senhor, não como filho adotivo, mas para trabalhar com ele. Ninguém que é vivo hoje sabe quem são os pais dele, apenas ouviram falar que a mãe se chamava Maria”, conta a defensora Eryca Rubielly, que acompanhou o caso de Leandro.
Para definir sua idade, Leandro precisou do testemunho de pessoas que conviveram com ele durante a infância, além de uma perícia realizada pelo Instituto Médico Legal (IML). O laudo, elaborado por uma odontóloga do órgão, indicou que o homem tem aproximadamente 56 anos de idade.
Segundo a defensora Eryca Rubielly, a falta de documentação impôs dificuldades severas à vida de Leandro, principalmente no acesso a direitos básicos: saúde, assistência social e cidadania.
“Como sobreviveu eu não sei te dizer, mas sabemos que ele nunca frequentou escola, nem hospitais. A vida dele é e sempre foi na zona rural”, comenta Eryca Rubielly.
Leandro procurou a Defensoria pela primeira vez em 2013, mas a falta de informações básicas sobre sua vida impediu o andamento do processo. Em 2024, com o avanço da tecnologia e novos mecanismos de investigação, ele voltou ao núcleo da instituição, que retomou o caso.
Entre as entidades acionadas para verificar a inexistência de registros estavam a Polícia Civil, a Polícia Federal, o Tribunal Superior Eleitoral. Até o Consulado da Bolívia, país vizinho a Nova Mamoré, foi consultado, para descartar a possibilidade de Leandro ter sido registrado por lá. Somente após o esgotamento de todas as possibilidades foi possível avançar judicialmente.
“Especialmente em áreas de fronteira, há sempre muita cautela com registros tardios, a fim de evitar algum tipo de duplicidade. Por isso precisamos esgotar a possibilidade de que Leandro já tivesse qualquer tipo de registro”, explicou.
O processo teve início em 2 de fevereiro de 2024 e foi concluído em 5 de dezembro de 2025. Como não havia uma data exata de nascimento, Leandro escolheu o dia 25 de julho de 1969 — o mesmo aniversário de sua esposa — como uma homenagem.
Atualmente, morando em Nova Mamoré, Leandro poderá, a partir da certidão de nascimento, acessar serviços essenciais como emissão de CPF, atendimento pelo SUS e benefícios sociais.
Fonte:g1.

